A influência da geografia e das ideologias no desenvolvimento dos modernos medicamentos.


A influência da geografia e das ideologias no desenvolvimento dos modernos medicamentos.

Segundo o dicionário Aurélio, milagre é um feito ou ocorrência extraordinária que não se explica pelas leis da Natureza. Na prática, o milagre se caracteriza mesmo é pela sua excepcionalidade, como nas curas de doenças normalmente incuráveis atribuídas a pessoas ou entidades com poderes sobrenaturais. No passado, os doentes terminais que escapavam das epidemias eram apresentados como evidência irrefutável da intervenção divina, e o religioso ou a imagem a quem o beneficiário atribuía a cura milagrosa se qualificava perante a Igreja católica através da beatificação a uma eventual santificação. No século passado, enquanto os milagres escassearam, as curas se multiplicaram, graças aos avanços da Medicina que ocorreram numa velocidade surpreendente.

A revolução técnico científica que teve lugar no século XX transformou a Medicina-Arte do século XIX, numa ciência sofisticada que se vale atualmente de uma tecnologia complexa e de alta precisão para estabelecer diagnósticos e tratamentos com drogas tão eficientes que poderiam ser classificadas como milagrosas. A velocidade com que a nova tecnologia foi introduzida na prática médica foi tão grande que o médico do século XXI é obrigado a se familiarizar rapidamente com as novas técnicas e os modernos equipamentos sob pena de perder sua clientela.

Por outro lado, para ganhar tempo e, sobretudo, não fazer mal (primo non nocere), o médico moderno necessita estar ao par dos avanços em terapêutica, particularmente das novas drogas, ausentes das farmacopéias do século passado e que, desenvolvidas no século XX, transformaram de fato a arte de curar na ciência de curar. A maior parte dessas drogas atua inibindo ou ativando uma enzima chave no metabolismo do agente patogênico ou do doente. Assim, por exemplo, as sinvastatinas atuam inibindo a ação de uma enzima indispensável à síntese do colesterol, sendo usadas, portanto, no tratamento da hipercolesterolemia. O sildenafil, conhecido popularmente pelo nome comercial de Viagra, atua inibindo a fosfodiesterase, responsável pela manutenção da flacidez peniana, assegurada normalmente pela ação contínua da enzima sobre ácido GTP cíclico. É também atuando sobre enzimas indispensáveis à sobrevivência das bactérias que agem a maioria dos antibióticos, enquanto os antimitóticos impedem a multiplicação das células cancerosas atuando sobre enzimas indispensáveis a sua reprodução.

A ciência de curar se iniciou aparentemente com a descoberta das vitaminas, substâncias indispensáveis ao organismo humano, que entretanto não as fabrica. As vitaminas atuam geralmente como co-enzimas sem os quais o metabolismo não funciona. Sua falta provoca doenças como a cegueira (Vitamina A), o beribéri (Vitamina B), o escorbuto (Vitamina C), e o raquitismo (Vitamina D). Presentes em alguns alimentos, as vitaminas, obtidas hoje sinteticamente, previnem as doenças provocadas por sua carência.

Entre as drogas desenvolvidas no século XX que fazem “o milagre” de curar doenças antes incuráveis, estão além das vitaminas as sulfas, os antibióticos e fungicidas, capazes de curar doenças que no passado agiam de forma epidêmica ou endêmica. A tuberculose, grande ceifadora de vidas, presente no mundo inteiro, só foi dominada com a introdução da isoniazida e a rifampicina. A sífilis, outra grande matadora mundial, só foi controlada com o advento da penicilina. O tifo, a cólera, a meningite e a pneumonia, todas até então consideradas incuráveis, foram se revelando rapidamente curáveis com a descoberta de outros antibióticos como a cloromicetina, as tetraciclinas, a furadantina, e os cefalosporinas. Fantasmas que assombravam os médicos, seus pacientes e familiares, as infecções que se instalavam no pós-parto, no pós-cirúrgico e no pós-traumático, e as chamadas infecções hospitalares que antigamente apresentavam uma letalidade de quase 100%, hoje ocorrem esporadicamente quando aparece uma variedade de germe resistente aos antibióticos. Doenças sexualmente transmissíveis como a gonorréia, a própria sífilis e o linfogranuloma venéreo, foram totalmente dominadas pelos antibióticos, devolvendo a saúde às suas vítimas “milagrosamente” em poucos dias. Um antibiótico especial que atua contra bactérias gram-positivas e uma variedade grande de fungos causadores das infecções que afetam as mulheres do mundo inteiro, o metronidazol (e seus derivados) cura 90% das vaginites, que não matam suas vítimas, mas provocam enorme desconforto, comprometem sua vida sexual, provocam mau cheiro e prejudicam a sua fertilidade. Os antibióticos não somente salvaram e continuam salvando a vida de bilhões de pessoas como asseguraram uma vida mais longa para todos os habitantes do planeta.

Doenças metabólicas como o diabete, que mutilava mais do que as guerras e matava precocemente a maior parte de suas vítimas, também foram controladas no século XX graças ao desenvolvimento de insulinas, de origem animal, usadas ao longo da vida pelos diabéticos, tipo I (insulino-dependente), que na realidade constituem apenas 10% dos diabéticos. Noventa por cento dos diabéticos são do tipo II e dependem dos antidiabéticos orais, todos sintetizados no século XX. Drogas como a metformina, a roziglitazona, a glimepirida e a glibenclamida, que reduzem a resistência à insulina nos milhões de diabéticos tipo II (insulino-resistente), devolvendo-lhes uma vida normal. Açucares sintéticos que não aumentam a glicemia, como a sacarina, os ciclamatos e o aspartame, ajudaram a adoçar a boca dos diabéticos, que passaram não somente a sobreviver, mas a ter uma qualidade de vida comparável à dos não diabéticos.

Os gotosos cujo sofrimento se deve ao excesso de ácido úrico nas articulações já não ficam imobilizados durante as crises como ficavam no passado, conseguem hoje reduzir os níveis do referido ácido úrico inibindo a sua formação através do uso da colchicina ou do sintético alopurinol. Do mesmo modo, as vítimas da artrite e da artrose conseguem viver hoje normalmente sem as dores articulares, que eram fonte de sofrimento crônica no passado, graças aos excelentes inibidores da COX II como o meloxicam, e mais recentemente, através dos novos inibidores do fator de necrose tumoral (TNF) como o Embrel e o Remicade.

Os transplantes de órgãos que têm salvo a vida de milhares de pessoas nos últimos cinqüenta anos não existiriam sem os imunossupressores como a ciclosporina e a rapamicina (Sirolimus) que associada aos corticoides diminui a rejeição dos órgãos transplantados.

Talvez a mais rápida resposta da Medicina-Ciência à ofensiva de uma nova doença aconteceu com o aparecimento da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). A doença é provocada por um vírus que neutraliza o sistema imunológico que era totalmente desconhecido há trinta anos atrás quando apareceram os primeiros casos. Da identificação do vírus até a síntese dos primeiros medicamentos anti-retrovirais eficientes, se passaram menos de vinte anos. Hoje a doença, que se transformou na mais séria epidemia da história da humanidade tendo provocado a morte de milhões de pessoas, já não mata aqueles que são tratados pelas novas drogas. Um “milagroso” coquetel com três anti-retrovirais que se complementam, impede não somente a morte do portador da AIDS, antes inevitável, como evita que uma criança nasça com a doença se sua mãe for portadora.

O vírus da AIDS não foi o primeiro a ser vencido pelos virostáticos; apesar de não assegurar cura definitiva, o vírus do herpes pode ser dominado pela droga Aciclovir. Outros vírus podem ser controlados através de vacinas também desenvolvidas ou aperfeiçoadas no século XX como a paralisia infantil e a varíola, ambas doenças terríveis que estão praticamente erradicadas graças à Medicina-Ciência.

Esses exemplos mostram que onde havia doença a Medicina-Ciência criou o remédio. É verdade que ainda existem algumas doenças para as quais não existe ainda remédio adequado ou vacina eficiente, como a malária, a doença de Chagas e a doença do sono. Felizmente são poucas e evitáveis combatendo-se os insetos transmissores graças aos modernos inseticidas, todos desenvolvidos no século XX.

Os médicos cardiologistas receberam algumas drogas milagrosas como os vários antihipertensivos, diuréticos, bloqueadores e ativadores dos receptores alfa e beta adrenérgicos como o propranolol, a fenilefrina, além de muitos outros que atuam no sistema renina-angiotensina ou na coagulação do sangue como a heparina, a warfarina e a coumadina.

Os gastroenterologistas receberam de presente inibidores poderosos da secreção de ácido no estomago, como a cimetidina, a ranitidina e o omeprazol, além de contarem com drogas antibióticas que erradicam o helicobacter pilori, o agente causal da úlcera gástrica que pode contribuir também para o câncer de estomago. Estimulantes da atividade contrátil do intestino como piridostigmina e antifiseticos poderosos como a dimeticona fabricada a partir do polisiloxano se tornaram elementos indispensáveis no quotidiano do gastro.

Os urologistas passaram a curar “milagrosamente” os impotentes com o sildenafil e seus sucessores mais recentes ou com a injeção local de prostaglandinas. Também passaram a dispor de próteses penianas feitas do mesmo silicone que se usa para fazer próteses mamárias. Além disso, passaram a contar com uma enorme variedade de tratamentos para hiperplasia e câncer da próstata.

O tratamento do câncer ganhou quimioterápicos extraordinariamente eficientes como o antimitótico metrotroxate, que cura o coriocarcinoma, tumor invasivo que no passado matava suas vítimas em poucas semanas. Algumas das novas drogas que revolucionaram o tratamento de tumores infelizmente ainda não estão ao alcance de todos. O bevacizumab (Avastin) e o cetuximab (Erbitux) são utilizados no câncer do intestino, Imatinib (Glivec) na leucemia mieloide crônica, o trastuzumab (Herceptina) no câncer de mama, o gefitinib no câncer do pulmão e o docetaxel (Taxotere) nos cânceres de mama e próstata.

O endocrinologista foi talvez o especialista que mais enriqueceu o seu arsenal de drogas milagrosas porque além de conseguir todos os hormônios e seus intermediários em estado de pureza (estradiol, testosterona, progesterona, DHEA, pregnenolona, cortisol, hidrocortisona, ACTH, FSH, LH, vasopressina, ocitocina, LHRH, TSH, TRH, GH, tiroxina, triiodotironina, insulina, PTH) para serem utilizados na reposição hormonal de pacientes deficientes, obteve drogas “milagrosas” que interferem na síntese, na secreção, ou na ligação do hormônio com o seu receptor. Derivados sintéticos dos hormônios, muitas vezes mais potentes (análogos e antagonistas) foram também sintetizados e disponibilizados para tratar algumas endocrinopatias. Anti-androgênios como o acetato de ciproterona, a finasterida e a flutamida são usados para tratar a hiperplasia prostática e até câncer de próstata, além de hirsutismo, acne e síndromes que cursam com hiperandrogenismo como a síndrome dos ovários policísticos na mulher. Antiestrogênios, como o tamoxifeno, são usados no tratamento e na prevenção do câncer de mama, a medroxiprogesterona e o acetato de megestrol curam o câncer do endométrio.

A gestrinona, droga anti-estrogênica que desenvolvi para o tratamento da endometriose e da miomatose, realizou centenas de “milagres” devolvendo a fertilidade à mulher infértil. O primeiro caso de mioma volumoso, que regrediu completamente após tratamento contínuo com gestrinona durante dois anos, permitindo a ocorrência posterior de três gravidezes, duas delas com gêmeos, foi descrito por mim em 1984. Depois deste caso, centenas de outros se seguiram.

Agonistas e antagonistas da luliberina (LHRH), como a leuprolida, a nafarelina, a buserelina, a triptorelina e a goserelina, são largamente utilizados para inibir a ovulação ou em tratamentos associados à gonadotrofinas para induzir a ovulação programada em clínicas de fertilização in vitro, grandes geradoras de “milagres”. Outro agente indutor da ovulação é o citrato de clomifeno. A bromoergocriptina (Parlodel) e a cabergolina (Dostinex) foram desenvolvidas especificamente para inibir a prolactina. Essas drogas, além de criar condições de permitir a ovulação em mulheres que não ovulam em virtude da prolactina elevada, induzem “milagrosamente” a regressão do tumor hipofisário que no passado exigia delicada operação na hipófise por via transesfenoidal. A desmopressina (DDAVP) é uma vasopressina sintética que substitue com vantagens o hormônio natural, permitindo o controle da diabete insípida com segurança, além de se constituir poderoso vasoconstritor.

O câncer da tireóide passou a ter cura através da aplicação do iodo radioativo e o hipertireoidismo controlado por drogas que interferem na síntese do hormônio tireoidiano, como o propiltiuracil. A endocrinologia também se beneficiou com produtos desenvolvidos especificamente para os ginecologistas além daqueles usados na indução da ovulação. Foram os anticoncepcionais que colocavam o médico pela primeira vez na história da medicina “tratando” mulheres sadias para evitar que engravidassem. Muitos anticoncepcionais foram desenvolvidos na América Latina onde havia uma concentração de médicos pesquisadores na área da Reprodução Humana. O primeiro anticoncepcional injetável de efeito prolongado foi descoberto na Bahia quando procurávamos um remédio para evitar partos prematuros. A medroxiprogesterona (Depo Provera) tem efeito anticoncepcional e a sua duração é proporcional à dose administrada por via intramuscular. O produto é comercializado em mais de 100 países além dos Estados Unidos. Outros anticoncepcionais injetáveis para uso mensal foram introduzidos um pouco mais tarde. O Perlutan é um anticoncepcional para uso mensal usado em vários países de América Latina. Estima-se que na América Latina cerca de 1.000.000 de mulheres usam o Perlutan. Ainda no Brasil, particularmente na Bahia, foram desenvolvidos anticoncepcionais para uso em dias alternados, outros para uso vaginal e um grande número de implantes anticoncepcionais, que podem ser utilizados para tratar as doenças provocadas pela menstruação como a TPM e a endometriose.

Podemos afirmar sem medo de errar que ao longo do século XX foram desenvolvidos milhares de novos remédios, inexistentes na natureza, que possibilitaram a cura de doenças antes incuráveis. Com o aumento da produção e a fabricação de similares e genéricos, os medicamentos “milagrosos” se tornam acessíveis às massas, assegurando vida longa e de boa qualidade até a populações indígenas que vivem a margem da civilização.

A imensa transformação que a tecnologia provocou na Medicina veio principalmente através do progresso da indústria farmacêutica, quase toda ela estabelecida no mundo ocidental capitalista. Creio que é importante ressaltar este fato porque a quase totalidade dos remédios “milagrosos” foi desenvolvida no período em que o mundo estava dividido em dois por ideologias políticas inconciliáveis. O mundo capitalista, liderado pelos Estados Unidos e a Europa Ocidental, e o mundo comunista liderado pela União Soviética e a Europa Oriental (veja o mapa). Muitas dos cientistas que contribuíram para sintetizar as substâncias que se tornariam drogas “milagrosas” foram alemães trazidos pelos americanos, franceses e ingleses para os seus países após a derrota do nazismo. Eram químicos, biólogos, médicos e físicos. Os russos se interessaram apenas pelos físicos, que os ajudariam a desenvolver os foguetes e as armas atômicas que ao fim da guerra só os americanos possuíam. Na própria Alemanha dividida após a guerra enquanto a parte ocidental desenvolveu uma poderosa indústria farmacêutica com a Schering, a Merck e a Hoescht, a oriental marcava passo retirando dos seus cientistas o incentivo financeiro normalmente assegurado pelo o direito de tirar patente dos seus inventos e a liberdade para criar.

É incrível, mas é verdade que nos quase oitenta anos de comunismo a União Soviética, o maior país do mundo com tecnologia que lhe permitiu enviar um homem ao espaço e estabelecer estações espaciais como satélites da terra, não tenham desenvolvido nenhuma das centenas de drogas que foram desenvolvidas no período que curam doenças consideradas incuráveis, assegurando assim uma qualidade de vida nunca antes alcançada pelo ser humano. Por isso nos oitenta anos de comunismo, os países do bloco comunista não ganharam nenhum prêmio Nobel de Medicina. Seus médicos deixaram de comparecer aos congressos mundiais realizados nos últimos cinqüenta anos e de ler e publicar em revistas médicas que tivessem artigos originais. Não é de admirar, portanto, que até hoje a produção científica na área médica continue a se originar somente no mundo capitalista conforme levantamento feito recentemente pela Organização Mundial de Saúde. De acordo com o levantamento chefiado por Guillermo Paraje, apenas vinte países são responsáveis por 90% da produção mundial do conhecimento nessa área e entre os 20 só há um país comunista, a China com 1.5%. O Brasil é o penúltimo dos vinte com 0.7%.

O assunto nos interessa porque no presente momento o Ministro da Educação do Brasil, de formação esquerdista, apresenta uma reforma das universidades que visa desindividualizar o professor universitário submetendo-o ao controle de sindicalistas, estudantes esquerdistas e outros representantes da sociedade não médicos que vão liquidar com as esperanças dos pesquisadores brasileiros de terem a sua criatividade estimulada e reconhecida afim de um dia poderem ser premiados como são os seus colegas que trabalham no mundo livre por descobertas, fruto da livre iniciativa responsável sem a castração dos ideólogos do governo.


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