Sobre ciclos, autenticidade e verdades internas


Pouco mais de um ano atrás, eu resolvi escrever um livro diferente. Até então, ao escrever eu sempre focava em aprendizados mais amplos que enxerguei com a minha jornada, e não em explicar a jornada em si, e assim publiquei meus primeiros quatro livros. Com esse novo projeto, eu queria fazer algo diferente: mergulhar na minha jornada propriamente dita, mas não de forma explicativa ou enaltecendo acertos, e sim me desconstruindo em busca de entender minhas verdades mais internas e descobrir passos e ações que me auxiliassem ainda mais nessa aventura em direção a minha melhor versão.

O plano original era ser um livro para o mundo no qual eu escancarasse meu coração, minha alma, minhas vulnerabilidades. Comecei a escrevê-lo, terminei uma primeira versão, quase lancei, mas senti que tinha tanto mais a descobrir, aprender, escrever... Terminei uma segunda versão. E senti que tinha tanto mais a descobrir, aprender, escrever... Terminei uma terceira versão. E senti que tinha tanto mais a descobrir, aprender, escrever... Rapidamente esse projeto se tornou um dos mais desafiadores da minha vida, pelo simples fato de que minha zona de conforto é desenhar um projeto, produzi-lo, e partir para desenhar outro projeto. Me treinei a vida toda para criar prazos e terminar projetos nesses prazos. Era uma novidade esse lance de terminar, e perceber que não estava nada terminado.

A cada versão, eu mergulhava mais e mais em tudo que já vivi mapeando comportamentos, descobrindo padrões, e entendendo as sementes que me levaram às minhas maiores conquistas e também aos meus maiores desafios. E, de repente, ficaram claros dois pontos. Primeiro, esse livro era interminável. Em algum momento eu até poderia dá-lo como pronto por agora, mas 100% pronto nunca estaria, pois a cada revisão, eu aprendia mais sobre mim, e tinha tanto mais a escrever. O próprio livro fazia com que eu ficasse cada vez mais veloz em revisar o livro. Segundo, esse livro poderia ser um dos maiores presentes que eu poderia dar a mim mesma, mas para ser realmente um tesouro, havia um paradoxo: eu tinha que escrever aquele livro para mim, fazendo um pacto comigo mesma de que não tinha que me preocupar em agradar ninguém ao longo dos meus mergulhos, nem a mim mesma. E, acima de tudo, eu não poderia escrevê-lo pensando em "produtizá-lo". Ele tinha que fluir de forma completamente orgânica. Se fosse assim, aquele livro poderia causar uma revolução na minha vida. Então que fosse assim.

O que era para ser um livro, virou sete livros. O que era para ser um mergulho, virou mergulhos e mais mergulhos, desconstruções em cima de desconstruções. Cada vez ficava mais natural me entender, e cada vez ficava mais rápido o ciclo para saber decisões certas a tomar, no dia a dia, e à longo prazo, com maior clareza. Uma clareza que não se baseia em estratégias do que se vê em relação às minhas forças e minhas habilidades, ou no que se entende quanto ao que mercado quer comprar, mas principalmente uma clareza que se baseia em um profundo entendimento sobre o que eu mais preciso em minha vida agora para continuar evoluindo cada vez mais como ser humano, em todas as minhas facetas de existência, como filha, irmã, namorada, amiga, colega, chefe e outros papéis que eventualmente assumirei.

O que vivi ao longo do último ano enquanto me permitia encarar de frente tanto coisas maravilhosas para as quais não dava o devido valor quanto medos que antes eu não enxergava foi sem dúvida o período de progresso mais acentuado na minha vida até hoje, e a auto-crítica mais visceral que já realizei. Aprendi que, se você estiver aberto de verdade a aprender, a vida não ensina pela metade. Aprendi que, inclusive, atraímos as situações que trazem os aprendizados que mais precisamos, então é importante olhar com atenção e refletir com carinho sobre cada desafio pelo qual passamos, até quando nada parece fazer sentido. Aprendi que erros são parte da nossa evolução, e que mesmo com a melhor das intenções e achando que não tem o que dar errado, vira e mexe eles aparecem como grandes professores, e às vezes até para nos proteger de entrar em caminhos que não são para nós.

Finalizei, dentro do que é possível considerar como finalizado, esses sete livros e, com minha cabeça que na hora cria mil projetos, já sabia como "produtizá-los" de diversas maneiras. Não só os livros em si, mas novos livros, sobre o que aprendi escrevendo esses livros, e também sobre como auxiliar pessoas a se aventurarem a escrever algo assim em relação às suas vidas. Mostrei o que havia feito para algumas pessoas e ficou claro que, se eu decidisse agarrar isso como foco agora, provavelmente daria para viver a vida toda desses livros e de produtos secundários que viriam deles. Isso se tornou uma possibilidade real e, considerando que eu coloquei minha alma nessas escritas, por um segundo eu até cogitei dar foco a isso nesse momento.

Mas meu coração disse que não. Minha alma berrou que não. Ao menos não agora. Depois de tudo que eu aprendi, depois de um projeto que me conectou tão lindamente com o melhor que eu posso ser, seria um erro até mesmo simbólico mostrar para o universo que eu iria não só abraçar os aprendizados do passado, mas de alguma forma também viver do passado. É uma sutileza, mas senti que o certo era abraçar aprendizados do passado para viver do presente.

Claro que o que aprendi estará sempre comigo, e trarei esse repertório para todas minhas vivências e projetos, mas ainda assim eu via uma diferença importante entre resgatar aprendizados pontuais quando fossem relevantes para o presente e deliberadamente transformar o meu presente em um projeto que se baseia bastante no passado. Esses aprendizados são muito relevantes, me fizeram quem eu sou hoje, e tenho certeza que ressonariam com muita gente, e inclusive poderiam me posicionar de forma muito ampla, falando diretamente com o coração de multidões. Isso seria um baita produto, muito provavelmente seria um tiro extremamente certeiro, mas sempre gostei de fazer as coisas de maneira diferente. Viver assim me abriu as portas mais incríveis, e também já me trouxe desafios gigantes, mas essa sou eu, e não dá para fugir que faz parte da minha essência seguir sempre o que minha intuição me pede, e colocar o orgânico acima da estratégia.

Nesse momento, em vez de lançar sete livros que tomariam as minhas conversas por uma década, decido apenas fechar um ciclo, um dos mais importantes da minha vida, que continuará agora como ciclos diários ou até mais breves, de momento a momento, ciclos quase instantâneos de me analisar, me entender, me permitir, e tomar decisões mais certeiras - e eventualmente ainda tropeçar porque quando você mostra para vida tudo que aprendeu, ela te dá novas lições. Olhando e escutando da forma certa, e com a consciência expandida, até mesmo as maiores pancadas podem fazer parte de um caça ao tesouro delicioso que te ajuda a entender o universo que existe dentro de ti. Acredito muito em protagonismo, mas também acredito que há um certo destino que é seu quando você se entrega em ser o seu mais verdadeiro eu. Você pode até tomar decisões ou fazer parte de decisões que tentem te desviar de mil maneiras daquele que é para ser o seu rumo, mas se até nos desvios você continuar sendo quem você realmente é, eles só vão te colocar em um caminho que é ainda mais perfeito para você.

Se em algum momento da minha vida eu sentir que é a hora de resgatar o que aprendi ao escrever esses sete livros, para um bem maior, eu resgatarei, mas por agora sigo mostrando para quem me acompanha a transformação que trouxe para a minha vida me permitir me revirar de ponta cabeça, e trarei aprendizados pontuais, não uma análise de trinta anos de uma vida de uma só vez. Depois de tantas desconstruções e aprendizados, o mais bacana de tudo é escolher o que ainda me serve hoje, descartar o que não me representa mais, e já usar esses pontos em um grau de evolução que toma em conta a própria revolução que esses livros e mergulhos me causaram.

Sempre usei minhas redes para falar de comportamento, e vou intensificar isso, porque o que mais desejo agora é aprofundar nos relacionamentos que tenho em cada uma das facetas da minha vida. No final, o que conta, o que fica, são como nossos aprendizados influenciam os nossos comportamentos e os nossos relacionamentos, que determinam a nossa qualidade de vida. Os maiores desafios da humanidade foram - e provavelmente sempre serão - sobre relacionamentos e comportamento de pessoas.

No final, o que vale, não é apenas "produtizar", viralizar, fazer sucesso, ou criar estratégias que na cabeça de quem não viveu a sua vida levem essas pessoas a te ver como alguém que sabe criar conquistas e voltas triunfais. O que vale é conseguir desenhar para si mesmo uma vida com a menor resistência possível em ser exatamente o que você é. Esse é o propósito da vida. O que vale é conseguir desenhar para si mesmo uma vida que permita que você faça mais do que te faz feliz. Nada é mais especial do que mudar o mundo para melhor sendo você mesmo. Nada é mais especial do que construir algo necessário e relevante enquanto os sentimentos que prevalecem são gratidão e amor pela dádiva de poder ser você mesmo.

Me orgulho muito das minhas escolhas, porque elas sempre tiveram a melhor das intenções e sempre respeitaram os meus valores pessoais, por mais que por ingenuidade, por vontade de agradar a tudo e a todos, por empolgação extrema, por pavor de ser passiva, por achar que era só eu escancarar a minha vida para me entenderem, por pavor de conflitos, por medo de ser mal interpretada, por confundir ser humilde com não me impor, por querer ser a primeira pessoa a fazer algo, por otimismo extremo, por ser seduzida pelo impossível, e por tantas outras razões eu tenha em alguns momentos me permitido ver uma vida cor-de-rosa demais, e em outros uma vida preta-e-branca demais. Acredito que a maior evolução está fora daquele caminho que todo mundo acha ser a resposta mais obviamente bem-sucedida, até porque os conceitos de sucesso andam bem distorcidos. Acredito que o maior triunfo que você possa trazer para sua vida é um auto-conhecimento profundo, que te ajudará a encontrar as respostas certas para você, alinhadas com o que é sucesso para você - e daí se permitir ser 100% você.