Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino Alexandre dos Santos é um jornalista, colunista e escritor. Rodrigo graduou-se em 1998 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e em 2000 obteve um Master of Business Administration (MBA) em Finanças pela Ibmec do Rio de Janeiro.


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Ainda bem que não é Ciro o presidente
Culto à personalidade e o rebanho bovino

Culto à personalidade e o rebanho bovino


Diante da convocação do guru do bolsonarismo para a criação de uma militância organizada e cadastrada em prol do presidente, vários reagiram tentando justificar a ação com base no “argumento” de que todos possuem militância.

É impressionante como tem gente que caiu na conversa de que a proposta olavista não tem nada demais, já que o MBL e o Partido Novo também possuem “militantes”. Não obstante a gritante diferença de postura de uns e outros, não entendem – ou fingem não entender – a diferença entre se reunir em torno de IDEIAS e PAUTAS e se reunir em torno de uma PESSOA, um POLÍTICO.

Não é militância conservadora que propõe Olavo, mas militância bolsonarista, para apoiar o presidente, não importa o que ele diga ou faça. Isso é claramente um culto à personalidade, reunindo uma massa em torno de um líder.

Alguns ainda tentaram apelar para o fato de que o presidente não tem um partido real, e por isso não é uma militância do PSL, mas sim bolsonarista. Argumentam que Bolsonaro representa uma ideia, o que remete ao lulismo, que repetia que Lula era uma ideia. Mais um sintoma de que é seita cultuando um líder, não militância em prol de valores.

Comparável com o que Olavo quer só tem mesmo no PT, cuja militância é, acima de tudo, LULISTA. Mais uma evidência de que bolsonaristas são petistas de sinal trocado. Lula Livre de um lado, Bolsonaro sempre certo do outro. Não dá mais para negar o perfil de seita fanática da coisa.

Aproveito para resgatar um texto meu de 2015, com base em Ayn Rand, sobre o rebanho bovino. Logo na epígrafe eu destaco a diferença: “Assim como uma sociedade adequada é governada por leis, não por homens, uma associação adequada é unida por ideias, não por homens, e seus membros são leais às ideias, não ao grupo”.

Os grupos descritos por Ayn Rand buscam crentes, não indivíduos livres que pensam por conta própria e questionam os dogmas do grupo. Por isso tanto ódio aos indivíduos que parecem não necessitar do rebanho e sentem-se livres para questionar suas crenças. Na ausência de pilares racionais que sustentem suas ideias, os membros deste grupo precisam desesperadamente de mais adeptos, na esperança de que a quantidade possa suprir a falta de qualidade. Sentem-se seguros apenas em bando. O argumentum ad populum é o único conhecido por seus membros. Quem precisa da lógica quando “todos pensam igual”? 

Gustave Le Bon, que estudou a psicologia das massas, concluiu que a estupidez é somada nestes grupos, não a inteligência. A razão não exerce influência alguma nesses rebanhos. E uma das características mais comuns das crenças é a intolerância. “Quanto mais forte a crença, maior a intolerância”, sendo crença aqui entendida como o oposto de convicção real. Homens dominados por tais sentimentos não são capazes de tolerar aqueles que não aceitam suas crenças. Os indivíduos independentes são sempre os maiores inimigos dos rebanhos.

Felipe Moura Brasil, que vem criticando essa postura de rebanho e, por isso, sendo detonado de forma pérfida pela turma coletivista, comentou: “Integrantes do PSL se assustaram com o cadastro de militantes e veem o risco de ‘um culto personalista, que vai levar o presidente ao isolamento, afastando os que têm qualquer racionalidade’, noticia a Folha. É só o óbvio, mas os cadastrados já sabem o que fazer: atacar o jornal”. De fato, atirar no mensageiro, tratado como inimigo mortal, é tática frequente em seitas. Como ironizou Felipe, se a imprensa gritar que 2 + 2 = 4, muitos vão rebater: “Fake News”.

O bolsonarismo é um movimento personalista, não de ideias. Até porque Bolsonaro muda muito de ideia, convenhamos. Seu liberalismo econômico mesmo, é um tanto recente. Sempre foi corporativista, votou contra reformas importantes, queria “fuzilar” FHC por ter privatizado a Vale. Quais ideias Bolsonaro de fato representa?

Família acima de tudo? Só se for a sua. Para seu filho, vai ter filé mignon mesmo, embaixada importante não importa a falta de qualificação. É essa ideia que ele representa? Para o outro filho, tudo indica que vai ter acordão com Toffoli e companhia mesmo, ainda que asfixie a Lava Jato. É o princípio da impunidade que ele incorporou e a militância vai defender?

O personalismo é o oposto do republicanismo. O culto à personalidade é incompatível com o conservadorismo. Gustavo Nogy falou dessa convocação da militância em coluna na Gazeta: “Olavo de Carvalho, fiador intelectual de Bolsonaro e família, convoca as hostes e é prontamente obedecido. Já há cadastro de militantes dispostos a derrubar a Bastilha. O filósofo que tanto e por tantos anos criticou a hegemonia gramsciana e o próprio conceito de revolução, agora quer uma ‘revolução permanente’ para brincar de Trotsky. Quem diria. O mundo dá voltas e prova que a terra ideológica não é plana.”

No final do dia a direita terá mesmo que se dividir entre aqueles que pregam valores, ideias e princípios, presentes nas doutrinas liberal e conservadora, e aqueles que cultuam um líder político, seguem um guru filosófico, e adotam o tribalismo como mentalidade predominante. Tal postura é antagônica ao bom conservadorismo.

Rodrigo Constantino