Ruy Ohtake

São Paulo/SP
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Ruy Ohtake

Formou-se em arquitetura pela Universidade de São Paulo em 1960. É reconhecido tanto no cenário nacional, como no internacional, como um dos proeminentes arquitetos, cuja obra tem sido referência, além de motivo de estudos e análises para trabalhos de graduação e pós-graduação de estudantes brasileiros e europeus.


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Contemporaneidade Histórica

Contemporaneidade Histórica


Casa e seus pressupostos arquitetônicos, inspirados em condicionantes ideológicos e socioculturais, são analisados pelo autor neste artigo. Desde o ideário norte-americano do imediato pós-Segunda Guerra às propostas latino-americanas, dos mestres Le Corbusier e Barragán, perpassando pelas experiências brasileiras de Oscar Niemeyer, Joaquim Guedes e Ruy Ohtake, entre outros, para chegar à residência neste início de século, com novos paradigmas de família.

Visitei, quando ainda estudante, a casa mais conhecida de Le Corbusier, a Ville Savoie - projeto de 1928 - . Uma emoção longa e muda foi a aproximação a essa casa, no topo de uma colina. Força plástica entre a serena proporção do primeiro pavimento e a volumetria do terraço-jardim da cobertura, a quase pictórica relação entre cheios e vazios, os pilotis a lhe conferirem uma surpreendente leveza e a rampa interligando os três pavimentos, um passeio pelos espaços da casa e o vislumbre da natureza que a envolve.

Pouco antes dessa viagem, havia lido Espacio, tiempo y arquitectura, de Sigfried Giedion (1888–1968), em edição espanhola. Leitura que me permitiu compreender a Ville Savoie além daquela emoção imediata: ali estavam, em pilares, concreto, vidro e vazios, os cinco postulados do modernismo propostos por Le Corbusier, e, mais ainda, a conceituação de espaço-tempo, ao observar que a estrutura independente da casa permitia que o cubo elevado do pavimento superior, além de vazado, tivesse vazios em várias direções.

A obra de Giedion constituiu leitura básica na formação do arquiteto daquela época - final da década de 1950 -, ao lado de Zevi (Saber ver arquitetura), Papadaki (Work in progress: Oscar Niemeyer), Pevsner (Pioneers of modern design), Le Corbusier (Obras completas) e Mumford (Arte e técnica), entre outros.

Decorridos pouco mais de 40 anos, é lançada agora a edição em língua portuguesa de Espaço, tempo e arquitetura. Nesse intervalo, a arquitetura conheceu extraordinária produção, pontilhada de diversificadas proposições, quase inimagináveis no período anterior, época da publicação inicial do livro.

Daí se compreender por que Giedion acrescentou mais de cem páginas a essa primeira edição (de 1941), em sucessivos adendos e capítulos até 1967 (ele faleceu em 1968), em função dos novos movimentos que a arquitetura começava a experimentar no pós-guerra. O próprio subtítulo colocado por Giedion - O desenvolvimento de uma nova tradição - denuncia seus propósitos e sua instigante percepção.

O FUTURO À VISTA
Adendo significativo é dedicado ao arquiteto dinamarquês JØrn Utzon - Ópera de Sydney, 1957 -, eleito por Giedion o representante da então terceira geração de arquitetos contemporâneos, que surgia a partir da década de 1950, procurando, afirma ele, consolidar as tendências escultóricas na arquitetura.

Ao referir-se, com comentários entusiasmados e pormenorizados, à Ópera de Sydney, salienta Giedion que “ele (Utzon) une de maneira inovadora duas intenções separadas: o exterior com maravilhosas abóbadas acopladas e o interior, espaço independente e funcional de uma ópera, inserido sob as abóbadas”, e que, “após meio século de desenvolvimento, a arquitetura contemporânea (década de 1960) inaugura um novo capítulo promissor para o futuro” (páginas 701 a 707, na edição brasileira). Sem dúvida, um dos pontos altos do texto.

A inquietação intelectual de Giedion o fez perceber, já naquela época, os “futuros caminhos da arquitetura”, que vieram a se confirmar, despontando, a partir da década de 1980, trabalhos de Jean Nouvel, Frank Gehry, Zaha Hadid, Renzo Piano, Santiago Calatrava etc. (aqui no Brasil, o professor e crítico Agnaldo Farias foi o precursor na ênfase a esses novos conceitos de arquitetura contemporânea).

Giedion sempre considerou que o historiador de arquitetura devia manter estreito contato com as concepções contemporâneas e que, ao estar impregnado pelo espírito de sua época, pode detectar aspectos do passado despercebidos pelas gerações anteriores. Indiferente ao chamado distanciamento histórico, ele participou intensamente das atividades dos arquitetos de sua época, sem receio de que isso pudesse ser uma ameaça a sua imparcialidade, dignidade, amplitude de visão.

Com essa perspectiva, selecionou mestres da arquitetura, alguns deles fora do movimento modernista, examinando o cenário cultural, econômico e social que envolveu cada arquiteto, cujas obras receberam magistrais e perspicazes comentários, permeados de proposições conceituais e sutis pormenores. Uma das razões que o tornaram um dos autores mais lidos no ambiente arquitetônico.

Sobre Frank Lloyd Wright (1867-1959), coroando uma densa narrativa que abrange o início do desenvolvimento industrial norte-americano e passa pela escola de Chicago, o autor observa com entusiasmo o longo e contínuo exercício do arquiteto e provoca: “A maleabilidade dos espaços internos concebidos por FLW trouxe vida, movimento e liberdade ao corpo rígido e inerte da arquitetura moderna”.

Seria um alerta? Giedion, apesar de reconhecer em Wright o arquiteto mais dotado de agudeza de espírito, um gênio com uma vitalidade de inexplicável riqueza, procura entender a ausência de seguidores de sua arquitetura, entre outras razões, pelo fato de a arquitetura norte-americana naquela época estar corroída pelos modismos clássicos e góticos, fato esse que se repete em várias cidades brasileiras, notadamente em São Paulo. Da “pequena e encantadora” casa Roberts (1907), Giedion destaca que a planta do tipo “moinho de vento” possivelmente tenha influenciado Mies van der Rohe.

Do conhecido projeto dos escritórios Johnson (1939), o autor faz uma indagação que já é a resposta: “Por que um local de trabalho não poderia uma vez só se basear na poesia?”, citando elogiosamente os espaços descomunais e os pilares em forma de cogumelo. Fica no ar, agora, uma interrogação: por que o Museu Guggenheim (1943–1959), considerado por muitos a obra mais significativa de Wright, não recebeu nenhuma referência na publicação?

O ESPETÁCULO DA ARQUITETURA
Le Corbusier (1887–1964), pela lição de idealismo, pela convicção profissional, é o arquiteto celebrado no livro. Ao observar que o poder de Corbusier residiu na sua força arquitetônica, Giedion enaltece o grande espetáculo de arquitetura, referindo-se ao terraço-jardim da cobertura de Marselha (1947); exalta Chandigarh (1956), que considera sua maior ousadia arquitetônica; atenta para a incorporação do equilíbrio flutuante das forças, leveza e transparência nas dezenas de casas; em La Tourette (1960), sente que todo o edifício exala ardente vitalidade; destaca a abordagem escultural de Ronchamps (1955), identificando-a como uma aspiração da arquitetura contemporânea; e aponta uma direção para os arquitetos: “Le Corbusier expressa tridimensionalmente a imaginação social”, aludindo à Unidade de Habitação de Marselha, onde o arquiteto levou ao sétimo andar do edifício uma rua com lojas, alimentação, estúdios, ateliês e passeio público, “procurando com isso reconstruir uma relação rompida entre o indivíduo e o coletivo”.

Desde o princípio, Le Corbusier manifestava a irresistível força do gênio e, além de formular já em 1926 os célebres cinco princípios do movimento modernista, converteu a estrutura independente, ou o esqueleto de concreto, em linguagem de arquitetura, abrindo enormes possibilidades de desenhar volumes, espaços e vazios - e a isso chamou de “arquitetura espiritual”, da qual a Ville Savoie constitui o mais belo e puro exemplo.

Giedion, ao atribuir dois talentos a Le Corbusier, o de saber reduzir (sem simplificar) um problema complicado a elementos básicos e o de sintetizar esses resultados com clareza primorosa, evidencia seu trabalho indissolúvel, como arquiteto, urbanista, pintor, escultor, poeta e pensador.

E poder-se-ia mencionar a mão aberta em Chandigarh, as texturas das paredes de Cambridge, as cores das paredes das sacadas de Marselha - de onde, anota Giedion, “Le Corbusier capturou na moldura arquitetônica a alma da paisagem de Provence, que Cézanne foi capaz de apreender” -, os baixos-relevos de Firminy, os vitrais de Ronchamps, a concepção do Modulor. Essa a personalidade que, não sem razão, recebeu mais de 300 citações ao longo da narrativa de Giedion.

Com relação à escolha do projeto para o edifício da ONU (1947), em Nova York, cabe um reparo: a preferência unânime, entre os dez arquitetos convidados que participaram do concurso, recaiu sobre o projeto de Oscar Niemeyer, o qual concordou, posteriormente, em deslocar a posição do bloco da Assembléia, atendendo ao velho mestre Le Corbusier. Portanto, diferente do longo relato apresentado por Giedion.

Le Corbusier desenvolveu obras de maior porte nos últimos 15 anos de vida, e atravessava uma fase de intenso trabalho quan- do veio a falecer, deixando como legado seu idealismo, suas influências que se espraiaram a todos os continentes e um expressivo número de seguidores. Lê-se o brado lancinante de Giedion: “Arrancaram o lápis de sua mão”.

OMISSÕES
Duas omissões no livro: a estranha ausência de Oscar Niemeyer, que já tinha construído o conjunto da Pampulha (1943), a residência de Canoas (1956), as obras principais de Brasília (inauguradas em 1960), além do edifício do Ministério da Educação e Saúde, este coordenado por Lucio Costa, com croquis inicial de Le Corbusier, e desenvolvido pela equipe brasileira, que constitui um dos grandes marcos do modernismo.

Nota-se, igualmente, a ausência de observações mais desenvolvidas sobre Brasília (1960), cujo Plano Piloto abriga 500 mil habitantes, e ainda mais quando o próprio Giedion, no capítulo “Planejamento urbano”, reconhece que na cidade moderna somente fragmentos foram realizados. A rápida referência à praça dos Três Poderes, mesmo com duas ilustrações, parece ser insuficiente.

Antes de abordar a arquitetura do século 20, Giedion abre três seções, remetendo do Renascimento até o século 19, com capítulos em que vários aspectos são analisados sob sua lente contemporânea. Aludindo, por exemplo, ao Capitólio de Roma, observa que um grande artista como Michelangelo é capaz de criar a forma artística de sua fase histórica bem antes que essa fase tenha começado a tomar forma tangível. Analisa, no início da industrialização, o uso do ferro e do aço na arquitetura, e também o do concreto armado, e se refere a Eiffel e sua emblemática torre nos níveis técnico, estético e emotivo, e a Maillart com as lajes-cogumelo e as surpreendentes pontes.

Antes de chegar à arquitetura contemporânea, Giedion não deixa de saudar Van der Velde e Victor Horta pelos esforços em retirar os enfeites que mascararam a arquitetura conservadora que dominou a Europa no século 19, restabelecendo, segundo o autor, a “moralidade na arquitetura”.

Nos capítulos dedicados ao urbanismo, fica clara a dificuldade, na Europa, de se concretizarem projetos urbanísticos no período em torno da Segunda Guerra Mundial, e Giedion crava uma sentença: “O futuro da arquitetura está indissoluvelmente ligado ao planejamento urbano”.

Por isso, sente-se, em seus comentários, a ausência de Brasília, inaugurada antes da quarta edição do livro. A recuperação econômica dos países europeus, principalmente a partir da década de 1980, com o autor já falecido, possibilitou importantes intervenções, em Barcelona, Berlim, Lisboa, e permitiu as grandes obras de Mitterrand em Paris. E, mais recentemente, verifica-se o gigantesco boom nas cidades chinesas.

Hoje, quando se observa uma retomada, denominada por críticos de arquitetura de modernismo tardio, torna-se muito oportuno o lançamento da edição em língua portuguesa de Espaço, tempo e arquitetura, que mereceu criteriosa apresentação de Ana Luíza Nobre.

Cabe ressaltar o alcance do texto de Giedion, ao observar criticamente a educação de hoje, direcionada à especialização cultural, enquanto a educação das emoções é negligenciada (página 908), de modo que se chega ao paradoxo curioso de que sentir, atualmente, se tornou mais difícil do que pensar. E Giedion arremata: “Nossa consciência cultural pode despertar repentinamente, porém não sem antes um desejo intenso de uma mudança interior e jamais sem uma preparação direcionada para o futuro”.